Mensagem do Director Regional da OMS para a África, Dr. Mohamed Janabi
O cancro deixou de ser uma crise silenciosa em África. Trata-se de uma emergência de saúde pública crescente que exige uma acção urgente, equitativa e sustentada.
Hoje, no Dia Mundial do Cancro, a Organização Mundial da Saúde junta‑se aos governos, parceiros e comunidades de todo o continente para reafirmar um compromisso inequívoco: o cancro pode ser prevenido, detetado precocemente e tratado de forma mais eficaz — e cada vida salva conta.
Na Região Africana da OMS, o cancro está a tornar-se uma das principais causas de morte prematura. Todos os anos, mais de 1 milhão de pessoas recebem um novo diagnóstico e cerca de 1 milhão perdem a vida devido à doença. Por detrás destes números estão mães, pais, crianças e jovens cujas vidas são encurtadas não porque não existam soluções, mas porque o acesso a essas soluções continua a ser desigual.
O cancro não é apenas um problema de saúde. É também um desafio para o desenvolvimento. Esta situação sobrecarrega as famílias, enfraquece os sistemas de saúde e compromete o progresso económico. O fardo recai de forma desproporcionada sobre aqueles que têm menos acesso à detecção precoce, ao tratamento atempado e à protecção financeira.
O ano transacto demonstrou o que pode ser alcançado quando o controlo do cancro é assumido como prioridade nacional. Os Estados-Membros da Região alargaram a vacinação contra o vírus do papiloma humano (HPV), reforçaram os serviços de rastreio do cancro do colo do útero, melhoraram o acesso aos cuidados oncológicos infantis e começaram a integrar os cuidados paliativos nos serviços de saúde de rotina. Estes são alicerces essenciais para melhorar a sobrevivência a longo prazo.
Contudo, persistem grandes lacunas. O diagnóstico tardio continua a ser frequente. As interrupções de serviço perturbam a continuidade dos cuidados. Os profissionais de saúde especializados são escassos. O acesso à radioterapia, à patologia e aos medicamentos essenciais contra o cancro continua a ser extremamente limitado em muitos locais. Para demasiadas famílias, o custo dos cuidados de saúde é catastrófico.
Demasiadas vezes, uma mulher é rastreada, mas nunca tratada.
Demasiadas vezes, uma criança é diagnosticada demasiado tarde.
Demasiadas vezes, as famílias têm de escolher entre procurar cuidados e satisfazer as suas necessidades básicas.
Isto não é aceitável.
A OMS continuará a apoiar os países africanos através de iniciativas mundiais e regionais baseadas em dados concretos, incluindo a Estratégia Mundial para a Eliminação do Cancro do Colo do Útero, a Iniciativa Mundial contra o Cancro da Mama, a Iniciativa Mundial contra o Cancro Infantil, a Plataforma Mundial para o Acesso a Medicamentos contra o Cancro Infantil e os Serviços Integrados de Oncologia para Mulheres.
Mas estas iniciativas só serão bem-sucedidas se forem plenamente integradas nos sistemas nacionais de saúde, financiadas de forma sustentável e traduzidas em serviços concretos ao nível dos cuidados de saúde primários.
Temos de investir no que funciona: Vacinação contra o HPV; testes de rastreio de alto desempenho; tratamento descentralizado de lesões pré-cancerosas; reforço da capacidade cirúrgica, radioterapêutica e patológica; acesso fiável a medicamentos essenciais contra o cancro; e integração de cuidados paliativos desde o momento do diagnóstico.
Temos de medir os progressos não por estratégias escritas, mas por raparigas vacinadas, cancros detectados precocemente, doentes tratados atempadamente, dificuldades financeiras reduzidas e vidas salvas.
Neste Dia Mundial do Cancro, apelo a uma acção decisiva a todos os níveis:
Os governos devem fazer do controlo do cancro uma prioridade de desenvolvimento, integrando a prevenção, a detecção precoce, o tratamento e os cuidados paliativos nos orçamentos nacionais, nas reformas da cobertura universal de saúde e nos sistemas de cuidados de saúde primários.
Os parceiros e os doadores devem investir em programas de grande impacto, integrados e sustentáveis.
Os profissionais de saúde devem continuar a liderar com competência e compaixão, garantindo a aproximação dos serviços às comunidades e reforçando os mecanismos de confiança no sistema de cuidados
As pessoas que vivem com cancro, bem como os sobreviventes, devem continuar a ocupar uma posição central nas respostas nacionais, actuando não só enquanto beneficiários dos cuidados, mas igualmente como intervenientes-chave e parceiros na condução das transformações necessárias.
África pode mudar a trajectória do cancro. Para isso será necessária uma vontade política sustentada, um investimento interno mais forte, sistemas de saúde resistentes e um empenhamento inabalável na equidade e na responsabilização.
Passemos dos compromissos aos resultados mensuráveis, das estratégias aos serviços, e asseguremos que ninguém em África seja deixado para trás na luta contra o cancro
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