Dia Mundial de Luta contra a SIDA, 2022

Mensagem da Dr.ª Matshidiso Moeti, Directora Regional da OMS para a África

Na sua qualidade de homem da classe trabalhadora senegalesa, Mbaye (não é o seu nome verdadeiro) estava orgulhoso do seu sucesso em 2019. Mas, em 2020, as suas roupas começaram a ficar nimiamente largas para ele. Foi fazer um teste de VIH e descobriu que tinha SIDA. O teste da sua esposa grávida também deu positivo. A família apressou-se a ir a Dakar, capital do Senegal, a partir de Thiès, no centro-oeste do Senegal, e iniciou-se um tratamento com anti-retrovirais para a sua saúde e para prevenir a infecção do nascituro. “Deus obrigado, o meu filho testou negativo à nascença”, exclamou o Mbaye.


A experiência do Mbaye não é a de todas as famílias em todo o continente. Isto leva-nos a apelar para que não deixemos a SIDA acabar no último lugar da lista das prioridades. 
Não há dia mais apropriado para este apelo do que hoje, 1 de Dezembro, quando nos reunimos anualmente com a comunidade internacional para assinalar o Dia Mundial de Luta contra a SIDA. Apoiamos as pessoas que vivem com o VIH e recordamos as que perderam a vida devido à SIDA. O tema deste ano “Equalize” insta cada um de nós a enfrentar as desigualdades na origem da epidemia e que freiam os progressos para acabar com a SIDA.


Na reunião de alto nível da Assembleia Geral das Nações Unidas sobre a SIDA em 2021, os líderes mundiais adoptaram a Declaração Política sobre VIH e SIDA: Acabar com as desigualdades e regressar no bom caminho para manter o rumo a fim de acabar com a SIDA até 2030. Os chefes de Estado e de Governo comprometeram-se a acabar com todas as desigualdades enfrentadas pelas pessoas que vivem com - e afectadas pelo - VIH nas comunidades e nos países, que constituem barreiras para acabar com a SIDA. A Região Africana continua a ser a mais afectada com 25,6 milhões de pessoas que vivem com o VIH. 


No entanto, foram feitos progressos na última década com uma diminuição das novas infecções em 44% e as mortes relacionadas com a SIDA em 55%. Estes progressos foram realizados porque a OMS e os parceiros: 1) organizaram campanhas de sensibilização e apoiaram a expansão de novas tecnologias de prevenção e tratamento do VIH; 2) forneceram orientações sobre combinações por prevenção, testes e tratamento do VIH; 3) reforçaram as capacidades nos países para melhorar a disponibilidade e qualidade de dados; 4) aumentaram o acesso a medicamentos, os meios de diagnóstico e as tecnologias da saúde acessíveis; e 5) apoiaram os planos nacionais de recuperação para o tratamento do VIH na África Ocidental e Central. 


Mesmo assim, os progressos são lentos, e persistem desigualdades nos serviços de prevenção, testagem e tratamento do VIH. Os dados da OMS sobre a resposta mundial ao VIH revelam que desde o início da COVID-19 e de outras crises mundiais, os progressos contra a pandemia do VIH vacilaram, os recursos diminuíram e milhões de vidas estão em risco.  

Quatro décadas após o início da resposta ao VIH, as desigualdades persistem nos serviços mais básicos, como o rastreio e o tratamento.  

Por exemplo, os programas de prevenção do VIH alcançam apenas 40% das adolescentes e das mulheres jovens. Apenas uma em cada três populações-chave particularmente vulneráveis ao VIH tem acesso regular a serviços de prevenção do VIH e ainda enfrenta barreiras estruturais significativas, entre as quais a criminalização, a discriminação e o estigma. Nesta população estão incluídos os trabalhadores do sexo, os homens que têm relações sexuais com homens, os consumidores de droga por via intravenosa, as pessoas em prisões e detenções e as pessoas transgénero.

Faltando apenas oito anos para alcançar o objectivo de 2030 de pôr fim à SIDA enquanto ameaça mundial à saúde, é necessária uma acção coordenada para travar os efeitos da epidemia, com um foco preciso de forma a alcançar as pessoas mais afectadas - especialmente crianças, raparigas adolescentes, mulheres e populações-chave.


Neste Dia Mundial de Luta Contra a SIDA, exorto os governos e os parceiros a colmatarem as lacunas relativas às desigualdades que travam os progressos para acabar com a SIDA, concentrando-se nas populações que estão a ser deixadas para trás. Precisamos de colocar as pessoas no centro da resposta, organizando serviços em torno das necessidades das pessoas e promovendo abordagens integradas centradas nos pacientes, que estão fortemente ligadas aos serviços de cuidados de saúde primários. 


Todos os Estados-Membros, apoiados pelos parceiros, deverão alargar e manter o acesso a serviços essenciais de prevenção e tratamento do VIH por todos, usando modelos inovadores de prestação de serviços. Temos de garantir que todos, em todo o lado, têm igual acesso à prevenção, testagem, tratamento e cuidados para o VIH.


Exorto os Ministérios da Saúde a criarem sistemas de saúde resilientes e adaptáveis que possam detectar desigualdades e fornecer abordagens adequadas para combater essas desigualdades. Isto requer um investimento financeiro, sistemas integrados de laboratório, uma força de trabalho bem formada e adequada, um acesso equitativo a medicamentos e sistemas de dados robustos.


Por fim, apelo aos líderes comunitários para que entrem em contacto com as suas populações e as ajudem a aceder aos serviços de tratamento do VIH sempre que necessário. Os líderes e todas as comunidades devem combater o estigma e a discriminação, garantindo que todas as pessoas se sentem seguras no acesso a serviços de tratamento do VIH. 

Saiba mais:

Quadro para uma resposta multissectorial integrada à tuberculose, ao VIH, às infecções sexualmente transmissíveis e à hepatite na Região Africana da OMS (documento AFR/RC71/2021)

ONUSIDA, actualização sobre a SIDA no mundo, 2022.

Estratégias mundiais do sector da saúde sobre, respectivamente, o VIH, a hepatite viral e as infecções sexualmente transmissíveis para o período 2022-2030

Orientações consolidadas sobre prevenção, testagem, tratamento, prestação de serviços e monitorização do VIH: recomendações para uma abordagem de saúde pública

Relatório de progresso sobre VIH, hepatites virais e infecções sexualmente transmissíveis, 2021