Malária em Angola: Agora podemos. Agora devemos!
Por: Dr. Nzuzi Katondi, WHO Malaria Officer
A 25 de Abril, o mundo celebra o Dia Mundial da Luta contra a Malária. Em Angola, esta data não pode ser apenas simbólica. Deve ser um momento de verdade, de reflexão profunda e de mobilização colectiva. O lema escolhido para 2026, “Determinados a acabar com a malária: agora podemos. Agora devemos”, não é uma frase de circunstância, mas um alerta sustentado pela ciência e por um imperativo moral. Pela primeira vez em décadas, dispomos do conhecimento, das ferramentas e das provas necessárias para eliminar a malária. A questão é simples e incómoda: estamos dispostos a agir com a rapidez e a determinação exigidas por esta realidade?
A malária continua a ser a principal causa de doença e morte em Angola, afectando desproporcionalmente crianças com menos de cinco anos e mulheres grávidas, com um impacto social, económico e humano profundo. Cada episódio de malária representa mais do que um simples diagnóstico: significa uma criança que não pode ir à escola, um pai ou uma mãe que não pode trabalhar e uma família empurrada para um ciclo de pobreza e insegurança. Esta realidade evidencia um desafio alarmante no continente africano, onde quase 600 mil pessoas, sobretudo crianças, morreram de malária em 2024. Perante estes números, a questão impõe-se: quantas mais vidas estamos dispostas a perder por uma doença que pode ser prevenida e tratada?
A Organização Mundial da Saúde tem sido clara ao afirmar que a malária não é apenas uma doença transmitida por mosquitos, mas também profundamente enraizada em factores sociais, ambientais e estruturais. A falta de saneamento básico, a presença de águas estagnadas, a má gestão de resíduos, as habitações precárias, o acesso limitado aos cuidados de saúde e a escassa educação em saúde criam condições ideais para a transmissão da doença. Onde faltam sistemas de drenagem, água potável, planeamento urbano e conhecimento, o mosquito prospera e a malária se perpetua.
Ainda assim, o momento actual é marcado por uma esperança concreta. Nunca houve tantos avanços científicos e operacionais no combate à malária. Redes mosquiteiras de nova geração, diagnósticos rápidos, tratamentos eficazes e, pela primeira vez, vacinas contra a malária, já introduzidas em 25 países africanos, mostram que a eliminação da malária deixou de ser uma ambição distante. Tornou-se um objectivo tecnicamente alcançável. No entanto, a ciência não salva-vidas se não chegar às populações mais vulneráveis. Angola tem vindo a reforçar a sua resposta nacional, valorizando os cuidados de saúde primários e o papel central das comunidades, em conformidade com as recomendações da OMS. No entanto, persistem desafios relevantes. A resistência aos inseticidas e aos medicamentos ameaça os progressos alcançados; as alterações climáticas alteram os padrões de transmissão; e as emergências humanitárias, como as inundações recentes em Benguela, aumentam a vulnerabilidade das populações.
A resposta à malária não pode limitar-se ao sector da saúde. A OMS sublinha que a eliminação da doença exige acção coordenada, multissectorial e responsabilidades partilhadas. O Governo lidera a estratégia, assegura um financiamento previsível, integra o combate à malária nas políticas de desenvolvimento, investe em saneamento básico, habitação condigna e gestão ambiental, e utiliza dados para orientar as decisões. As lideranças locais e comunitárias promovem comportamentos preventivos e reforçam a utilização correcta das redes mosquiteiras e das outras ferramentas ao seu alcance. Os parceiros e o sector privado podem acelerar o impacto, apoiando a inovação, a logística e soluções resilientes às alterações climáticas. Nas comunidades, a prevenção começa em casa: as famílias devem eliminar as águas paradas, proteger crianças e mulheres grávidas, procurar cuidados de saúde atempadamente e partilhar informação correcta.
Há também uma forte dimensão económica. Estudos da OMS e de seus parceiros indicam que cada dólar investido na prevenção e controlo da malária pode gerar até 36 dólares de retorno económico, ao reduzir os custos de tratamento, aumentar a productividade, melhorar a frequência escolar e impulsionar o crescimento sustentável. No entanto, a falta global de financiamento, estimada em 45 mil milhões de dólares entre 2026 e 2030, ameaça este progresso. A história é clara: quando o investimento diminui, a doença avança e o custo humano e económico é sempre maior.
A OMS tem apoiado Angola, exercendo liderança técnica na definição e implementação de políticas, planos estratégicos e diretrizes adaptados ao contexto nacional, reafirmando o compromisso com estratégias eficazes, como vacinas contra a malária, quimioprevenção, novos medicamentos, vigilância genética e diagnósticos avançados. Este esforço conjunto mostra que é possível eliminar a malária em Angola, desde que haja liderança nacional, trabalho multissectorial, envolvimento activo das comunidades, financiamento contínuo e colaboração com parceiros.
"Agora podemos”, porque dispomos de ciência sólida, de provas concretas e de experiência acumulada. “Agora devemos”, porque cada atraso custa vidas: vidas de crianças, de mães e de comunidades inteiras presas a um ciclo evitável de doença e pobreza. Acabar com a malária não é apenas um objectivo de saúde pública, mas também um acto de justiça social, uma opção clara a favor do desenvolvimento e um compromisso com a dignidade humana. Neste Dia Mundial da Malária, a questão é directa e inevitável: se não for agora, quando será? Se não formos todos, quem eliminará a malária, protegerá estas vidas e quebrará, de uma vez por todas, este ciclo de mortes evitáveis?
Este artigo foi publicado pela primeira vez no Jornal de Angola, cuja versão pode ser encontrada aqui: https://www.jornaldeangola.ao/noticias/9/opini%C3%A3o/674645/mal%C3%A1r…!