A festa da vacinação para proteger o futuro

A festa da vacinação para proteger o futuro

Por: Olívio Gambo, oficial de comunicação da OMS em Angola.

Nos últimos dias de Março, Angola viveu mais um daqueles momentos que nos lembram o valor de nos unirmos em prol de uma causa maior. A campanha nacional de vacinação contra a poliomielite transformou bairros, comunas e municípios numa verdadeira celebração da vida. Autoridades locais, famílias, líderes comunitários, igrejas, jovens voluntários, profissionais de saúde e parceiros nacionais e internacionais, incluindo do sector privado, uniram esforços para garantir que nenhuma criança ficasse para trás.

As imagens vindas de todo o país falavam por si: jovens a atravessar riachos e a empurrar motorizadas por caminhos difíceis, profissionais de saúde a percorrer longas distâncias para chegar às famílias mais isoladas. O barulho das caripandas, o vaivém dos kupapatas, as camisolas e os chapéus brancos a encherem as ruas, a música e a dança nas ombalas criaram um ambiente de alegria, mobilização e esperança. A intenção desta festa era clara: proteger as crianças angolanas com uma ferramenta essencial, eficaz e amplamente recomendada em todo o mundo: a vacinação.

No entanto, fica a questão: e se esta festa fosse permanente? E se a mobilização que testemunhámos durante a campanha acontecesse todos os dias? E se as famílias, os bairros e os centros de saúde adoptassem esse espírito de responsabilidade na sua rotina? E se vacinar uma criança se tornasse tão natural quanto levá-la à escola?

Outros países já demonstraram que tal é possível. Experiências no Uzbequistão e no Gana mostram que o reforço das equipas móveis, a melhoria da cadeia de frio, uma logística inovadora e o envolvimento directo das comunidades podem reduzir drasticamente o número de crianças não vacinadas. 

No Uzbequistão, por exemplo, a taxa de cobertura da vacinação de rotina é actualmente de cerca de 96%, graças a investimentos contínuos em infraestructuras de refrigeração, logística e expansão dos serviços de imunização. No Gana, equipas móveis e meios de transporte alternativos, incluindo barcos, permitiram aumentar seis vezes o alcance semanal da vacinação em áreas de difícil acesso. Estes exemplos mostram que, quando há vontade colectiva e liderança comprometida, a mudança acontece.

Em Angola, num contexto de avanços significativos e encorajadores no sector da saúde, estimativas da OMS e do UNICEF indicam que mais de meio milhão de crianças nunca receberam uma única dose de vacina no momento do nascimento. Estas crianças, conhecidas como “zero dose”, estão totalmente expostas a doenças evitáveis. Embora este número seja desafiante, deve, sobretudo, servir de motivação: se a vacinação se tornar um hábito constante, cada bairro, cada aldeia e cada comuna podem transformar-se em espaços de protecção e esperança.

Por isso, deixo uma reflexão simples: e se começássemos a avaliar os municípios e as comunas também pelas respectivas taxas de vacinação? Se celebramos alunos brilhantes, bons gestores e boas estradas, por que não celebrar comunidades que garantem que as suas crianças estão protegidas?

Os desafios em Angola são reais, mas também o são as soluções. O país continua a enfrentar obstáculos que afectam o acesso e a continuidade dos serviços de vacinação, incluindo problemas logísticos, comunidades distantes e de difícil acesso, um número insuficiente de técnicos de vacinação e a persistência da desinformação, que alimenta o medo e a hesitação. A estes problemas somam-se a escassez de meios de transporte para longas distâncias e o facto de nem todas as lideranças locais estarem plenamente envolvidas no apoio à imunização.

Contudo, nada disto é impossível de resolver. Outros países enfrentaram desafios semelhantes e avançaram com soluções simples e eficazes, como equipas móveis mais robustas, cadeias de frio funcionais e estáveis, um abastecimento regular de vacinas, campanhas de esclarecimento contínuas e uma maior participação de líderes comunitários, religiosos e tradicionais.

Em Angola, as lideranças locais têm desempenhado um papel fundamental na mobilização em prol da saúde e podem fazer ainda mais: incentivar as famílias, alertar as unidades sanitárias sempre que surjam falhas e exigir melhorias sempre que faltarem vacinas ou meios para alcançar as comunidades mais distantes.

É desta ligação viva entre o Estado, as comunidades e os parceiros que nasce a mudança real. Assim, deixaremos de depender apenas de campanhas pontuais e passaremos a criar hábitos que salvam vidas e promovem transformações sociais duradouras. Angola tem hoje uma oportunidade rara: transformar as mobilizações em rotina, fazer da vacinação uma cultura e torná-la parte da nossa identidade enquanto povo que protege os seus.

A história mostra-nos que cada criança vacinada representa um futuro protegido. E quando protegemos o futuro, protegemos Angola. A responsabilidade é de todos: do político ao pai, do dirigente ao voluntário, do pastor ao soba. Podemos reforçar a nossa cultura de cuidado, agir com responsabilidade, proteger a vida, proteger os nossos e proteger o país que estamos a construir. Se cada gesto conta, então este é o gesto que marcará gerações: vacinar, proteger e cuidar. Vamos vacinar as nossas crianças e proteger o futuro de Angola.

Este artigo foi publicado pela primeira vez no Jornal de Angola, cuja versão pode ser encontrada aqui: https://www.jornaldeangola.ao/noticias/9/opini%C3%A3o/673247/a-festa-da…

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