Mensagem do Director Regional da OMS para a África, Dr. Mohamed Janabi
Hoje, ao assinalarmos o Dia Mundial das Doenças Tropicais Negligenciadas (DTN) sob o tema Unir, Agir, Eliminar, recordamo-nos que as doenças tropicais negligenciadas não são inevitáveis. Não persistem porque faltam soluções, mas porque persistem desigualdades.
Mais de mil milhões de pessoas em todo o mundo ainda estão em risco de contrair doenças tropicais negligenciadas – doenças evitáveis, tratáveis e, cada vez mais, em vias de eliminação. Em África, continuam a afectar as comunidades mais pobres e marginalizadas, reforçando os ciclos de pobreza, a incapacidade e o estigma, e limitando as oportunidades ao longo das gerações.
As doenças tropicais negligenciadas não são apenas uma preocupação para a saúde. São uma medida da desigualdade. Prosperam onde o acesso a água potável, ao saneamento, à educação e aos serviços básicos de saúde é mais fraco. Privam as crianças da aprendizagem, os adultos da sua capacidade de produção e as comunidades da dignidade e do desenvolvimento que merecem.
No entanto, existe um fundamento real para ser confiante. Em toda a Região Africana, os países têm demonstrado que a eliminação dessas doenças é possível quando o empenho, as parcerias e o envolvimento das comunidades se conjugam. Em Dezembro de 2025, 22 países tinham eliminado pelo menos uma das doenças tropicais negligenciadas. No ano passado, o Níger também se tornou o primeiro país da Região Africana a ser certificado pela OMS pela eliminação da oncocercose, uma conquista histórica para o continente.
Foram igualmente realizados fortes progressos na luta contra o tracoma, a filariose linfática e outras doenças tropicais negligenciadas, enquanto a dracunculose encontra-se agora no seu nível mais baixo já registado, com uma redução de mais de 99,9% nos casos desde o início dos esforços de erradicação.
Estas conquistas são importantes. Traduzem-se em crianças que podem frequentar a escola sem dor ou deficiência, adultos que podem trabalhar e apoiar as suas famílias, e comunidades que se podem concentrar no crescimento em vez de sobreviver. Mostram que um futuro livre de doenças tropicais negligenciadas não é apenas uma aspiração longínqua.
Ao mesmo tempo, os progressos permanecem desiguais e o tempo é curto. O Roteiro da OMS para as DTN 2021–2030 estabelece metas ambiciosas, mas alcançáveis, incluindo uma redução de 90% no número de pessoas que necessitam de intervenções para as doenças tropicais negligenciadas, e a eliminação de pelo menos uma doença tropical negligenciada em 100 países. Com 2030 a aproximar-se rapidamente, cada ano de atraso corre o risco de abrandar a dinâmica e deixar milhões para trás.
É encorajador que vários Estados-Membros estejam no bom caminho para atingir os marcos de eliminação em 2026 e posteriormente. O sucesso dos Estados-Membros, e o da Região Africana no seu conjunto, dependerá das escolhas feitas agora: proteger os ganhos arduamente obtidos, manter o investimento interno, reforçar os cuidados de saúde primários e chegar às comunidades que continuam a ser mal servidas devido à sua geografia, pobreza ou fragilidade.
Acabar com as doenças tropicais negligenciadas requer uma acção colectiva. Os governos, os deputados, os profissionais de saúde, os voluntários comunitários, a sociedade civil, os doadores, o sector privado, os jovens e as pessoas afectadas pelas doenças tropicais negligenciadas têm todos papéis essenciais a desempenhar. Os progressos aceleram quando as comunidades são capacitadas e quando a liderança nacional é complementada por parcerias internacionais sustentadas.
Neste Dia Mundial das doenças tropicais negligenciadas, apelo a todos os parceiros para que:
- mantenham o apoio aos países que já atingiram a eliminação para garantir que os ganhos são protegidos;
- apoiem os países que se aproximam da eliminação em 2026 para garantir que o sucesso não é atrasado;
- intensifiquem os esforços nos países onde as doenças tropicais negligenciadas ainda prejudicam a saúde, a dignidade e as oportunidades, não deixando nenhuma comunidade para trás.
Temos as ferramentas. Temos os dados factuais Temos um roteiro claro. O que é necessário agora é uma vontade política sustentada, um financiamento adequado e uma acção decisiva.
Um futuro sem doenças tropicais negligenciadas é um futuro em que a equidade é real, as oportunidades são partilhadas e o pleno potencial de África pode ser realizado.
Vamos agir com urgência – não mais tarde, não eventualmente, mas agora.
Saiba mais:
- Neglected Tropical Diseases Q&A
- Global Report on neglected tropical diseases 2025.
- African Nations unite to eliminate visceral leishmaniasis and boost cross-border collaboration for NTDs
- Ending the neglect to attain the Sustainable Development Goals: A road map for neglected tropical diseases 2021–2030
- WHO verifies Niger as the first country in the African Region to eliminate onchocerciasis
