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Comunicar para proteger

Comunicar para proteger
Comunicar para proteger

Por: Olívio Gambo, Oficial de Comunicação da OMS em Angola.

Num mundo cada vez mais afectado por surtos, epidemias, eventos climáticos extremos e outros desafios para a saúde pública, a questão já não é saber se surgirão novas crises, mas sim quão bem estaremos preparados para as enfrentar. A preparação para as crises não depende apenas dos hospitais, dos medicamentos ou dos profissionais de saúde disponíveis; depende também de algo menos visível, mas igualmente decisivo: a confiança das comunidades.

Foi precisamente esta a reflexão que emergiu do recente Workshop Nacional de Comunicação em Saúde, promovido pelo Ministério da Saúde. Mais do que um encontro técnico, a iniciativa colocou no centro do debate uma questão muitas vezes esquecida: a capacidade de um sistema de saúde de proteger as pessoas depende também da sua capacidade de comunicar com elas. 

Durante muito tempo acreditámos que a informação era suficiente para mudar comportamentos. Hoje, sabemos que a realidade é mais complexa. As pessoas não tomam decisões apenas com base nos factos que recebem; decidem com base no que compreendem, nas experiências que vivem e na confiança que depositam nas instituições.

Uma mãe decide vacinar o filho porque confia no sistema. Um cidadão recorre a um centro de saúde porque acredita que será atendido. Uma comunidade segue as recomendações durante um surto, pois confia em quem as transmite. 

Por conseguinte, a confiança é frequentemente a primeira linha de defesa da saúde pública.  Esta foi uma das mensagens centrais destacadas pelo Representante da Organização Mundial da Saúde em Angola, Dr. Indrajit Hazarika, ao recordar que uma comunicação eficaz não consiste em demonstrar conhecimento, mas sim em garantir a compreensão e que a credibilidade não se constrói durante uma crise, mas sim todos os dias. 

As experiências internacionais confirmam esta realidade. Durante a crise do Ébola na África Ocidental, os resultados começaram a melhorar quando as comunidades passaram a participar activamente na resposta. Líderes comunitários, organizações locais e autoridades tradicionais ajudaram a reconstruir a confiança e a adaptar as soluções às necessidades das populações. 

A lição é simples: a informação, por si só, tem impacto limitado. Quando as comunidades são envolvidas, aumentam a confiança, a adesão às recomendações e a capacidade de resposta. É precisamente esta visão que está na base da Estratégia Regional da OMS para África no domínio da Protecção e da Resiliência Comunitária (2023-2030). 

A estratégia reconhece que as comunidades preparadas, organizadas e envolvidas são um dos activos mais importantes para a segurança sanitária e para sistemas de saúde mais robustos.  A protecção comunitária consiste em reduzir as vulnerabilidades antes que os riscos se transformem em crises, enquanto a resiliência comunitária significa garantir que as comunidades consigam adaptar-se, responder e recuperar quando esses riscos se materializam. Portanto, nenhuma destas capacidades nasce numa emergência; ambas se constroem no quotidiano.

No caso de Angola, são necessárias algumas prioridades estratégicas. A primeira consiste em ouvir mais as comunidades e integrar as suas preocupações, percepções e experiências na elaboração de políticas e programas de saúde. A segunda prioridade é reforçar o papel dos agentes comunitários de saúde, dos líderes religiosos, das autoridades tradicionais e das organizações da sociedade civil como parceiros permanentes na promoção da saúde e na mobilização das comunidades. É igualmente importante integrar a comunicação nos cuidados de saúde primários, aproximando os serviços das populações. 

Países como o Botswana têm alcançado resultados positivos ao fortalecer estruturas comunitárias que ajudam a mobilizar cidadãos, a identificar precocemente problemas de saúde e a reforçar a ligação entre as comunidades e o sistema de saúde. Por conseguinte, o Workshop Nacional de Comunicação em Saúde pode ir além de uma iniciativa pontual; pode ser ampliado e representar uma mudança importante na forma como pensamos a saúde pública em Angola, deixando de ver a comunicação apenas como um instrumento de divulgação, tornando-a uma ferramenta de participação, prevenção e construção de confiança.

Num contexto marcado por desafios sanitários cada vez mais complexos, investir na escuta das comunidades e aproximar os cidadãos das decisões que afectam a sua saúde deixou de ser uma opção e tornou-se uma necessidade. Os hospitais tratam doenças; no entanto, são as comunidades informadas, envolvidas e preparadas que ajudam a preveni-las, enfrentá-las e superá-las. 

Em última análise, a força de um sistema de saúde mede-se não apenas pela qualidade dos serviços que presta, mas também pela qualidade da relação que estabelece com as pessoas.

Este artigo foi publicado pela primeira vez no Jornal de Angola, cuja versão pode ser encontrada aqui: https://www.jornaldeangola.ao/noticias/9/opini%C3%A3o/681370/comunicar-para-proteger